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O PAPEL DA EDUCAÇÃO FRENTE AOS NOVOS
PARADIGMAS ECONÔMICOS.

 Por Conceil Corrêa da Silva e Cynthia F. Vasconcellos

 Os anos setenta representaram um divisor de águas do ponto de vista das relações industriais. O padrão de industrialização construído desde o pós-guerra baseado na produção em massa de mercadorias padronizadas começou a sofrer alterações.

As taxas de crescimento de grande parte das economias capitalistas desenvolvidas diminuíram e a concorrência intercapitalista à nível mundial aumentou.

O mercado consumidor tornou-se mais exigente, houve um aumento da demanda por produtos diferenciados, o que diminuiu o ciclo de vida de cada mercadoria produzida e impulsionou o processo de diversificação produtiva.

Estas alterações iniciaram-se timidamente, constituindo-se a princípio em casos pontuais, porém difundiram-se e hoje caracterizam um novo padrão dominante, um novo modelo de produção.

Na construção deste modelo muitas empresas, inclusive no Brasil, passaram ou estão passando por processos de reestruturação que afetam seu tamanho, sua escala de operações, o número de trabalhadores desempregados e o grau de exigência e pressão exercidos sobre aqueles que permanecem em atividade.

A instabilidade do capitalismo nos últimos anos fez com que o mesmo deixasse de funcionar por ciclos de longo prazo e passasse a sofrer freqüentes e contínuas flutuações de curto prazo.

Essa realidade faz a produção subir e cair rapidamente aumentando a necessidade de se alterar e diversificar o mix de produção para diminuir o risco da atividade capitalista e fazer frente às oscilações da demanda.

Isso significa uma enorme quantidade de mudanças em tempo reduzido, dificultando os processos de adaptação tanto no ponto de vista do trabalho quanto do capital.

O fato é que no ambiente atual de globalização, as mudanças de fato ocorrem muito rapidamente e a maioria das pessoas necessita de uma preparação, não somente para manter a eficiência neste ambiente, mas também para não "se quebrar" frente a essas fontes de stress.

O stress pode alterar o equilíbrio interno das pessoas, e esse desequilíbrio se expressa muito constantemente na forma de uma depressão, de um transtorno de pânico ou de um distúrbio obsessivo-compulsivo.

Pessoas e empresas podem "se quebrar"e adoecer frente a estas situações estressantes. De certa forma, tudo que falarmos daqui em diante em relação a pessoas aplica-se também as empresas.

O Dr. Jorge Alberto Costa e Silva, Diretor de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde, define o ser humano como uma totalidade integrada, segundo ele:

"…a nossa biosfera inclui não apenas o ambiente físico e natural, mas também a família e a sociedade com tudo o que se inclui nela. Não existe ser humano ser humano fora desse ambiente, como não há peixe fora d’água. Tudo o que altera e polui nossa relação com as outras pessoas se reflete em nosso organismo. O psicológico e o biológico são duas faces da mesma moeda".

Da mesma maneira, podemos dizer que a saúde, a disposição física e psíquica do conjunto de pessoas empregadas em uma instituição, estão intimamente ligadas à "saúde", produtividade e competitividade da empresa.

Uma das situações mais difíceis para o ambiente empresarial são as estressantes experiências vividas em uma recessão econômica, onde todo cuidado é pouco, pois um ambiente recessivo pode em algum momento se transformar em depressão econômica.

Todos já passaram por um momento de "se sentirem derrubados", angustiados, enxergando a vida por um prisma cinzento.

Devemos ter o cuidado de não confundir este momento de "recessão emocional", que tem a ver com a tristeza — com algo que não deu certo — com a disfunção do tipo depressão; disfunção que atinge de 5 a 6% da população mundial.

A depressão é uma disfunção que afeta os pensamentos, os sentimentos, a saúde e o comportamento. Alguns problemas econômicos como o desemprego, o nível salarial, as pressões e exigências do mercado ou situações de vida envolvendo separação, luto e outras, podem desencadear uma depressão.

Não é comum um quadro depressivo provocar longos períodos de afastamento do trabalho, e no mínimo, ocasiona uma grande perda de produtividade.

Em algum sentido todos somos vulneráveis, mas há um certo consenso que um fator genético, mais especificamente, o cromossomo oito está intimamente ligado ao surgimento da depressão. Considera-se que há uma somatória de influências, biológicas, ambientais e psicológicas.

No ranking da Organização Mundial de Saúde (OMS) das doenças mais caras para a sociedade, a depressão ocupa hoje um dos primeiros lugares. Nos Estados Unidos o custo da depressão incluindo gastos indiretos chega a US$ 80 milhões por ano. Segundo dados da OMS, existiriam hoje no Brasil, cerca de 7,5 milhões de pessoas padecendo desta disfunção.

Sentimento de ansiedade, aborrecimento, sensação de vazio, tristeza persistente durante a maior parte das duas últimas semanas — esse é o quadro que deve ser observado para o diagnóstico da depressão de acordo com o Office of Scientific Information, National Institute of Mental Health dos Estados Unidos.

Associado a isso deve-se apresentar três ou mais dos sintomas descritos a seguir:

Frequentemente ocorrem também sintomas físicos que costumam não responder bem a tratamento, como por exemplo, dores de cabeça, distúrbios digestivos e dor crônica.

As depressões podem ser classificadas como discretas, moderadas e graves. Na depressão grave, apresentam-se quase todos os sintomas tornando impeditivo o exercício das atividades diárias regulares. Na depressão moderada, apresentam-se muitos dos sintomas o que frequentemente impede o cumprir das obrigações. Já na depressão discreta, apresentam-se alguns sintomas, o que exige um esforço adicional para fazer as coisas necessárias.

A empresa, assim como o indivíduo, tem que estar preparada para passar por situações de perdas econômicas, de diminuição de capital de giro, por situações abruptas que envolvam a perda de parcelas de mercado e conseguir elaborar o luto de perder relações políticas favoráveis e parceiros comerciais históricos.

Em um ambiente de prolongada recessão econômica ou de uma depressão, a empresa não pode correr o risco de ela própria entrar em uma disfunção e se tornar "depressiva".

A empresa "deprimida" perde suas capacidades criativas, torna-se lenta, impotente, desamparada, com dificuldades de interpretar as informações, processá-las, memorizá-las e tomar decisões necessárias. Uma empresa com depressão, mesmo que discreta, no atual sistema de globalização pode estar correndo risco de vida e o tratamento deve ser rigoroso e imediato. A atitude preventiva deve ser uma preocupação permanente.

Para além das implicações capital-trabalho, existem fortes indicações de que a globalização econômica traz em seu bojo problemas que afetam o sistema social de vários países, inclusive o nosso.

Por exemplo, na tentativa de harmonizar a legislação, que envolve o Brasil e os demais países do Mercosul, várias dificuldades são detectáveis:

E não é somente para dentro de nossas fronteiras que as novas formas de relacionamento entre as nações provocam o incremento das tensões.

Houve época, em que se imaginava que após o colapso do Império Soviético, e consequentemente com o fim da Guerra Fria, o mundo entraria em uma época de paz. Paradoxalmente — segundo estudos da ONU — a Guerra Fria mascarava tensões entre nações, grupos étnicos e comunidades religiosas, de maneira que o mundo de hoje é, pelo menos, tão perigoso quanto ao anterior.

Cada vez mais, em razão do exposto, há um crescimento dos campos do conhecimento humano debruçados sobre como compreender a integração entre os povos e favorecer a paz.

Certamente, a Educação cumpre um papel essencial na ajuda para transformar a globalização — enquanto fenômeno estabelecido, seja bom ou ruim — em trocas que possam ser consideradas solidárias entre os indivíduos e os povos.

De acordo com a UNESCO, para esta finalidade, ela deve ser capaz de ajudar as pessoas a se auto-conhecerem e favorecer a compreensão do outro, facilitando um melhor entendimento do mundo.

Dentre os primeiros passos em direção ao desenvolvimento da capacidade de avaliação dos complexos eventos mundiais, é preciso adquirir:

Nessas condições, mais do que nunca, a Educação mostra ser insubstituível para o desenvolvimento da capacidade de julgamento – desenvolvendo genuínas compreensões, promovendo a competência de enxergar além de interesses políticos sazonais e distorcidos.

A Educação já tem historicamente se debruçado sobre esses aspectos. Existem agora uma enorme tarefa, a ser pensada a colocada sob a forma de um sério projeto pedagógico. Isso envolve a busca da melhor maneira de se ensinar a construção de um mundo solidário – e que ajude a ultrapassar as visões egoístas e meramente mercantis que ameaçam se associar à idéia da globalização.

A idéia da formação de um ser humano, mais capaz de exercitar suas responsabilidades, na arquitetura de um mundo que precisa estabelecer trocas, que segue diminuindo a força de suas barreiras e fronteiras, mas que não pode se esquecer, que dentre os objetos de troca, os mais importantes são a cultura, e a capacidade que o ser humano tem de se apoiar mutuamente desenvolvendo-se mais e melhor.

O contrapeso dos interesses vis, individualistas, politiqueiros e rasteiros, deve vir do setor da Educação, assim como, de todos os outros setores que promovam e se ocupem do crescimento do indivíduo, de sua saúde e do seu bem-estar.

Não devemos perder de vista, que a globalização só interessa aos povos, se pudermos globalizar o bom.

Dr. Conceil Corrêa da Silva
Médico, Escritor, Grupoanalista, Professor, Presidente do Conselho da Associação Brasileira de Estudos das Inteligências Múltiplas e Emocional® (ABRAE)

Cynthia Figueiredo Vasconcellos
Professora de Economia da PUC-Campinas, Conselheira efetiva do Conselho de Economia do Estado de São Paulo (1993-1995), Pesquisadora do Instituto de Geociências da UNICAMP e Presidente do Conselho da Sobrade (entidade ambientalista)

Fonte:
Revista de Estudos do Curso de Jornalismo – IACT/ PUC-Campinas
Ano I – n° 01 – Outubro de 1998 – p. 48-54


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