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Entrevista Gardner |
(Entrevista cedida pela revista Pátio Ed. Artes Médicas))
Howard Gardner é professor de Educação e co-diretor do Projeto Zero, no Harvard Graduate School of Education, e professor adjunto de Neurologia na Boston University School of Medicine. É autor de inúmeros livros, incluindo "Estruturas da Mente", "A Criança Pré-Escolar: como pensa e como a escola pode ensiná-la" e, mais recentemente, "Mentes que Criam". Em 1981, Gardner recebeu o Mac Arthur Prize Fellowship e, em 1990, tornou-se o primeiro americano a receber o Louisville Grawemeyer Award in Education.
Pátio Seu livro Inteligências Múltiplas: A teoria na prática, publicado pela Artes Médicas em português, atraiu o interesse de muitos educadores brasileiros. Na sua opinião, qual seria a razão para este sucesso?
Howard Gardner Não posso falar especificamente sobre o Brasil. A teoria das IM (Inteligências Múltiplas) tornou-se popular em muitos países porque proporciona apoio para um fato que a maioria dos professores (e a maioria dos pais) sabe: as crianças têm mentes muito diferentes umas das outras, elas possuem forças e fraquezas diferentes, e é um erro pensar que existe uma única inteligência, em termos da qual todas as crianças podem ser comparadas. Muitos programas educacionais têm sido baseados na teoria, e esses programas contém inovações promissoras no currículo, na pedagogia, na avaliação e no uso de recursos fora do prédio da escola.
Pátio O senhor não tem medo de que seu trabalho de pesquisa possa ser visto como uma nova panacéia, já que o público está sempre ávido por novidades?
Gardner Evidentemente, não posso ser responsável pelo uso que as pessoas dão às minhas idéias. Espero que esses usos sejam responsáveis. Recentemente, comecei a escrever artigos que salientam algumas concepções errôneas. Por exemplo, criar sete ou oito testes, um para cada inteligência, é muito arriscado pode repetir o mesmo tipo de rotulação que ocorreu nos testes únicos de inteligência.
Pátio Que nova visão da educação a teoria das Inteligências Múltiplas nos daria?
Gardner A implicação educacional mais importante das teorias das IM é esta: todos nós temos tipos diferentes de mente, e o bom professor tenta se dirigir à mente de cada criança da forma mais direta e pessoal possível. Se os professores têm uma turma de alunos muito grande, é difícil fazer isso. Mas se o foco começa no jardim de infância, e se os pais (e mais tarde as crianças) entram no esquema, torna-se possível um tipo de educação mais personalizado. Atualmente estou escrevendo um livro em que demonstrarei como tópicos importantes como a teoria da evolução e o Holocausto podem ser ensinados, de modo que as crianças com diferentes perfis intelectuais compreendam as idéias básicas.
Pátio Fale-nos um pouco sobre o Projeto Zero da Harvard e sobre o trabalho de pesquisa que começou a ser desenvolvido lá.
Gardner O Projeto Zero da Harvard, iniciado por Nelson Goodman e co-dirigido por David Perkins, realiza pesquisas básicas sobre cognição, aprendizagem e artes há 30 anos. Atualmente, estamos envolvidos numa variedade de projetos incluindo um estudo sobre se as pessoas podem ser criativas e também responsáveis; o treinamento do automonitoramento na aprendizagem; se a aprendizagem artística "se transfere" para outras disciplinas nas escolas; uma revisão das escolas que ensinam para as inteligências múltiplas. Estamos no negócio de criar novas idéias e ver se elas podem ser colocadas em prática nas escolas, nos museus e em outros ambientes educacionais.
Pátio Que resultados sua pesquisa colheu após as mudanças ocorridas na prática pedagógica decorrentes da utilização de sua teoria nas escolas?
Gardner A pesquisa sobre as inteligências múltiplas ainda está em seu período de bebê. Mas posso dizer, com certa confiança, que tanto os alunos quanto os professores passam a refletir mais sobre sua aprendizagem; mais crianças sentem que suas forças pessoais estão sendo reconhecidas; pais e alunos têm mais enfoques e questões a discutir; os alunos fazem projetos que são efetivos e aprendem a se apresentar convincentemente em público. Entretanto, estes resultados felizes e positivos não acontecem automaticamente: os professores precisam trabalhar de modo perseverante por alguns anos para dominar as idéias e coloca-las em prática, sempre refletindo sobre aquilo que está funcionando bem e aquilo que não está.
Pátio Na teoria das Inteligências Múltiplas, como é feita a avaliação pedagógica?
Gardner Conforme mencionado anteriormente, não estou muito interessado em determinar quais são os objetivos da aprendizagem os papéis a serem atingidos, as habilidades a serem dominadas, os desempenhos a serem buscados. Isso seria avaliado, então, da maneira mais direta possível, e não através de testes de respostas curtas, avaliados por uma máquina. Se você quer saber se alguém é capaz de escrever um editorial efetivo, ou executar um experimento, deve fazer com que as pessoas realizem essas tarefas. E se você quer saber se os professores são capazes de ajudar os alunos nessas atividades, observe os alunos trabalhando sob a supervisão dos professores e examine o trabalho dos alunos e o feedback que recebem.
Pátio Considerando a teoria das Inteligências Múltiplas, qual seria o maior desafio para a educação? E qual seria o papel do professor?
Gardner O maior desafio é conhecer cada criança como ela realmente é, saber o que ela é capaz de fazer e centrar a educação nas capacidades, forças e interesses dessa criança. O professor é um antropólogo, que observa a criança cuidadosamente, e um orientador, que ajuda a criança a atingir os objetivos que a escola ou o distrito, ou a nação estabeleceu.
Pátio Como os sistemas de comunicação, que são cada vez mais rápidos, interferem na educação e na inteligência?
Gardner Os sistemas de comunicação cada vez mais rápidos não são bons nem maus em si mesmos não mais do que o rádio ou o telefone são inerentemente bons ou maus. O risco é que receberemos tantas mensagens, tão rapidamente, com tão pouco controle de qualidade, que não poderemos nos sentar calmamente e avaliar o que é importante, a que devemos prestar atenção e o que devemos ignorar. Mas sempre nos resta o poder de desligar a máquina.
Pátio Na sua opinião, quais são as perspectivas para a educação no próxima século?
Gardner As constantes em educação são ajudar o indivíduo a compreender seu mundo, a ser capaz de lidar com a mudança e a ser humano cívico. Como fazer essas mudanças é algo que muda em certos aspectos, mas continua constante em outros. Uma vez que existe tanto a aprender, precisamos ser mais seletivos e estratégicos, e precisamos ajudar os indivíduos a continuar aprendendo depois que saem da escola.
Pátio Como a criatividade emerge durante o desenvolvimento do ser humano?
Gardner Todo indivíduo tem o potencial para ser criativo. Mas as pessoas só serão criativas se quiserem ser se estiverem dispostas a contestar a ortodoxia, a aceitar as críticas, a não se pertubar com ataques ou insultos.
Minha contribuição a respeito deste assunto é dupla: 1) ao invés de ver a criatividade como uma propriedade geral, vejo os indivíduos como criativos ou não-criativos em domínios específicos, que geralmente mapeiam a inteligência; 2) como Csikszentmihalyi, vejo a criatividade como envolvendo não apenas mentes humanas, mas também domínios em que os indivíduos trabalham, e campos que realizam julgamentos sobre a qualidade e a novidade do trabalho.
Pátio Como as inteligências se desenvolvem na velhice?
Gardner Enquanto o indivíduo não ficar senil, ele pode continuar a desenvolver inteligência. Precisamos praticar, enfrentar novos desafios, refletir sobre aquilo que aprendemos. Provavelmente, algumas inteligências (como as pessoais) continuam a se desenvolver muito naturalmente durante toda a vida; outras, como a lógico-matemática, habitualmente se atrofiam, a menos que a pessoa tenha um foco específico.
Pátio O livro de Daniel Goleman (Inteligência Emocional) também fez muito sucesso entre os educadores brasileiros. Nesse livro, ele enfatiza que os sentimentos não eram considerados nos antigos testes de QI e aponta uma nova maneira de se pesquisar nessa área. Entretanto, as proposições de Goleman se aproximam dos manuais de auto-ajuda. Qual é a relação da sua proposta com a de Goleman?
Gardner Gosto do livro de Daniel Goleman. Sua discussão da inteligência emocional é similar à minha discussão das inteligências interpessoal e intrapessoal. Minha única crítica à qual você alude é que Daniel tende a fundir o descritivo (o que as inteligências são) com o prescritivo (como são os seres humanos). Da minha perspectiva, as inteligências são amorais tanto Goethe quanto Goebbels eram mestres da língua alemã, mas Goebbels usou isso para fomentar o ódio.
Pátio A década de 90 está sendo caracterizada como a "década do cérebro". Nunca foi feita tanta pesquisa sobre a inteligência artificial. Seria possível construir um computador que fosse um réplica mecânica das sete inteligências humanas?
Gardner Algumas inteligências são bem mais fáceis de simular no computador do que outras. Aspectos das inteligências musical e lingüística são facilmente simulados. As inteligências pessoal e corporal seriam mais difíceis. Recentemente acrescentei duas novas inteligências a naturalista (entender o mundo da natureza) e a existencial (fazer perguntas básicas sobre a vida, a morte, o universo). Seria difícil para um computador simular a inteligência existencial.
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