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Entrevista com Prof. Ulisses Ferreira de Araújo

(cedido pela Revista Simpro Cultura)

OS TEMAS TRANSVERSAIS ESTÃO NA MIRA DO COTIDIANO ESCOLAR

(Por Clóvis Tôrres – Jornalista da Sinpro)

ulisses.jpg (20226 bytes)Falar em temas transversais pode parecer, ainda, algo muito estranho para vários professores. Mas, na verdade, apesar das dúvidas e indagações existentes este tema vem sendo discutido há um certo tempo. Desde 1995 quando o Ministério da Educação começou a formular os Parâmetros Curriculares Nacionais que esta discussão começou a tomar conta da agenda de alguns edcadores. Mas, afinal de contas, o que vem a ser Temas Transversais? De que forma se daria esta reforma na atual estrutura curricular? Foi buscando responder a estas questões e, principalmente, fomentar o debate, que a Sinpro Cultura foi entrevistar o professor Ulisses Ferreira Araújo. Doutor em Psicologia Escolar pela USP e professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Educação da Unicamp, onde também é coordenador da área de ensino, avaliação e formação de professores. Ele esteve na Espanha (país que inspirou a proposta de transversalidade elaborada pelo MEC) e acompanhou de perto o início desta discussão. Além disso, está coordenando uma coleção com dez livros de várias áreas sobre o tema para a Editora Moderna. Certamente que sua contribuição é fundamental para esta discussão que se faz necessária e inadiável. Como seria? O que mudaria? Confira o que este professor pensa e defende sobre a transversalidade. Para ele, os temas transversais vieram para ficar. "Podem até mudar o nome, mas são irreversíveis."

Sinpro Cultura – Como definir o que são temas transversais?

Professor Ulisses – Para definir o que são temas transversais é preciso fazer uma pergunta: De onde vêm os conteúdos que trabalhamos na escola? Pergunta que eu sempre me fiz enquanto estudante e que na verdade passa pela cabeça de todo mundo durante a vida escolar. Por que temos que estudar matemática, química, física, geografia, história e português? Por que são estes os conteúdos e não outros? A resposta disso vai ser encontrada na cultura grega clássica há aproximadamente 2.500 anos e esta cultura é que definiu de certa maneira que estes conteúdos é que deveriam ser trabalhados na educação. Era uma cultura altamente elitista. A tal da democracia grega era de homens brancos e livres e objetivava o desenvolvimento da inteligência de toda a razão do intelecto com objetivos claros do desenvolvimento e das conquistas da indústria bélica. Uma consequência deste modelo de cultura é que eles não precisavam se preocupar com o cotidiano das pessoas, porque para isso existia mulher e escravo. Então esta cultura é dominada e incorporada pelos romanos e difundida para praticamente todo o mundo, principalmente o ocidental. É este modelo de ciência que é reproduzido até os dias de hoje em que os conteúdos que a gente estuda na escola objetivam um alto desenvolvimento cognitivo do aluno. A consequência mais visível disso é o desenvolvimento tecnológico, que logicamente está sempre a serviço da indústria bélica. Este desenvolvimento traz consequência para a população: o homem vai à lua, tem computador pentium, aparelho de tomografia computadorizado etc. Mas vem uma pergunta: quem é que usufrui destas conquistas?

SC – Poderia dizer que o modelo atual de educação contribui para o desenvolvimento tecnológico, mas não humano?

Prof. Ulisses – Exatamente, porque quem usufrui destas conquistas continua sendo uma elite de "homens brancos e livres". A maioria não têm acesso a estas conquistas e a escola reproduz este modelo. Então me pergunto: O que será que é mais importante para a maioria da população? Será que é mais importante saber que a vegetação da Sibéria é a tunda, ou entender aquele córrego poluído que passa na porta da casa dele? Ou será que é entender o que é o amor, a ética, o respeito às outras pessoas? Então estes outros conteúdos de respeito à natureza, às outras pessoas, esta visão mais humanista, sempre esteve fora da escola, sempre foi relegada a um âmbito privado. Isso é papel da família, da igreja. Então, em torno desta discussão que surge, e isso não é característica de nenhum país específico, mas das lutas por cidadania, da luta de grupos minoritários, das ONG-Organizações Não Governamentais – de vários países, é que começa a pressão para que os conteúdos mais humanistas entrassem dentro da escola. Aí surge o problema: Como entrar nesta questão? Aumentar a carga horária dos alunos? Porque ninguém em sã consciência vai negar a importância desse desenvolvimento intelectual. Quando se fala dos temas transversais, não quer dizer que a escola tenha que deixar de trabalhar matemática, geografia....

SC – Não quer dizer que será suprimida ou substituída qualquer disciplina das atuais?

Prof. Ulisses – Claro que não porque ninguém vai negar a importância que o desenvolvimento tecnológico e intelectual tem para a humanidade. O problema é esta dissociação. Então o desafio que surge para a educação, a partir do momento que começa a haver pressão por parte destas minorias, é como trazer estes conteúdos para dentro da sala de aula, já que estes conteúdos precisam ser trabalhados na escola e não podem mais ficar no âmbito privado das famílias. É uma responsabilidade do Estado. É em cima desta idéia que surge a intenção de trazer estes conteúdos para a escola, sendo estes considerados temas transversais aos conteúdos tradicionais.

SC – Onde e como já estão sendo trabalhadas, na prática, estas questões?

Prof. Ulisses – A referência do Brasil é a Espanha, de onde vem o modelo da reforma educacional Brasileira que se iniciou a partir de 96. Este é o país que tem este modelo mais sistematizado. É lógico que falar de ética e meio ambiente na educação é uma discussão que está no mundo inteiro, mas como uma reforma educacional isso aconteceu na Espanha em 89, 90... E foi nesse modelo que o MEC se baseou para fazer a reforma brasileira a partir do governo de Fernando Henrique. Inclusive um dos coordenadores da reforma espanhola foi o assessor do MEC na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais, em 1977. A reforma brasileira tem uma influência muito grande da que aconteceu na Espanha e essa é a razão da fonte principal de bibliografia no Brasil sobre este assunto ser de autores espanhóis.

SC – Mas de que forma esta política se daria na escola de hoje, uma vez que se propõe uma reforma curricular?

Prof. Ulisses – Bom, existe um livro que foi lançado no Brasil em 1997 que se chama TEMAS TRANSVERSAIS EM EDUCAÇÃO, da professora Maria Dolores Busquets e outros autores, que traz uma determinada concepção. No prefácio da edição brasileira deste livro, que eu escrevi, através da minha experiência de ter vivido na Espanha e acompanhado um pouco do trabalho que lá ocorreu, comento que existem três formas distintas de se conceber esses temas transversais e de como eles pdem ser trabalhados dentro da escola. Na verdade são duas concepções e três formas diferentes, como escrevo no prefácio do livro. Uma primeira concepção entende que os conteúdos tradicionais continuam sendo o eixo vertebrador do sistema educacional, o objetivo da escola continua sendo trabalhar os conteúdos tradicionais (História, Química, Língua, etc.) e transversalmente, perpassando estes conteúdos, você teria os conteúdos mais relacionados ao cotidiano da população, os quais, na reforma brasileira, como definidos inicialmente, são: ética, meio ambiente, orientação sexual, pluralidade cultural e saúde. Atualmente na reforma também foi incluída educação e trabalho como sexto tema. Agora temos várias formas de pensar como isso teria que acontecer.

SC – Quais seriam estas forma?

Prof. Ulisses – Uma primeira forma é entendendo que essa relação deve ser intrínsica, sem distinções claras entre os conteúdos tradicionais e transversais. Um professor de biologia, matemática, etc. precisa aliar o conteúdo da sua disciplina à construção da cidadania, democracia, meio ambiente. Outra maneira de trabalhar esta questão é entender que a relação pode ser feita pontualmente, através de módulos ou projetos específicos em que o professor de uma disciplina tradicional deixaria de trabalhar somente o seu tema e incorporaria alguma questão transversal em suas aulas. Dessa forma, ele priorizaria o conteúdo específico de sua área de conhecimento, mas abriria espaço para outros conteúdos. A terceira forma de conceber essa relação é integrando interdisciplinarmente os conteúdos tradicionais e os temas transversais, entendendo que a transversalidade só faz sentido dentro de uma concepção interdisciplinar do conhecimento.

SC – Isso teria que acontecer de uma forma descentralizada e me parece que o que tem sido feito pelo MEC até agora não tem esta abrangência toda....

Prof. Ulisses - ...Não, eu não faço esta leitura que o MEC impôs, como sei que é uma leitura tradicional, porque acho que o Ministério foi muito mais pressionado pelas ONGs e pelo próprio estado de democratização do país a incluir estes conteúdos dentro do sistema educacional do que foi uma idéia brilhante de alguém que achou que deveria trabalhar sexualidade nas escolas.

SC – Seria fruto da pressão social?

Prof. Ulisses – Claro! Acho que hoje ninguém consegue negar o problema da sexualidade, que ele precisa ser trabalhado na escola.

SC – Eu concordo, mas o que estou questionando é como se definir a forma como trabalhar a sexualidade na escola, por exemplo, sem a existência de um amplo conselho de representantes de pais, alunos, professores e outros educadores?

Prof. Ulisses – Se falarmos da sexualidade, como um tema que sempre foi visto como sendo de âmbito privado, papel da família e talvez até da religião discutir sim, mas é preciso perceber que algo mudou. No mundo moderno a coisa não pode mais ser vista desta maneira, porque uma adolescente que engravida não é mais um problema só da família, é da sociedade, isso tem um custo social muito grande. Um sujeito que não respeita o meio ambiente, que é violento, não é problema só familiar, é social. A partir do momento que entendemos desta maneira, deixamos de acreditar que para se trabalhar a sexualidade ou a ética dentro da escola tem que ter autorização ou participação da família. É papel do Estado, as sociedade. Não passa pela discussão se a família quer ou não que o aluno tenha educação sexual, porque passa-se a entender estes conteúdos como importantes para o próprio desenvolvimento da sociedade. Então neste sentido a própria LDB e os Parâmetros Curriculares Nacionais mostram que a escola não tem mais que pedir autorização dos pais para ter aula de orientação sexual.

SC Não falo em autorização, mas em participação...

Prof. Ulisses - ...participação nesse sentido, sim, mas antes não, a escola para trabalhar estes temas tinha que pedir autorização.

SCVocê acha que esta participação já está se dando através das ONGs, sindicatos e demais entidades organizadas?

Prof. Ulisses – De certa forma sim. Na verdade eu diria que este trabalho com meio ambiente, ética ou sexualidade já vinha sendo feito por inúmeras escolas, mas não era dado este nome, era trabalhado em cima de projetos: projeto cidadania, projeto meio ambiente, dia do índio e outros. O que existe de novidade é o fato do Estado estar assumindo isso como política de governo, o que acho positivo porque é um avanço. Uma coisa é uma escola ou outra, principalmente as privadas, assumir este trabalho, outra é o Estado dizer para o país inteiro que o objeto da educação precisa passar a ser este também. Não podemos mais nos limitar a dar aula de português ou matemática simplesmente....

SC – É a questão da cidadania?

Prof. Ulisses – Sim, se pegarmos a LDB e mesmo os parâmetros curriculares vamos ver que o objetivo principal da educação é a cidadania. E não vamos atingir a democratização e a cidadania deste país com a escola que trabalha os conteúdos tradicionais como o fim da educação. Eu considero uma mudança de paradigma em termos de como o Estado passa a entender a educação.

SC – De que forma esta questão está colocada nos Parâmetros Curriculares Nacionais?

Prof. Ulisses – Ela é o eixo central dos Parâmetros, é o princípio. Uma coisa podemos sentir claramente é que hoje se discute esse assunto muito mais na rede pública (que recebeu exemplares do Parâmetros Curriculares do MEC) do que na rede privada porque esta está com sua estrutura muito voltada para o vestibular. Acredito que a rede privada está demorando um pouco para entender a revolução que está acontecendo. Daqui há quatro anos não haverá mais vestibular neste país, pelo menos da forma como acontece atualmente. O vestibular da Unicamp, este ano, colocou os 500 Anos de Descobrimento do Brasil como tema gerador que perpassa por todos os conteúdos, inclusive de matemática. Temos uma mudança na forma como se faz a seleção de ingresso na universidade. Esta mudança que os Parâmetros Curriculares traz, mas que não é obrigatória, está mais presente hoje e trazendo uma nova concepção de educação. A rede pública começa a discutir isso e a rede privada ainda está defasada em termos de discussão, apesar de muitas escolas já trabalharem com isso há muito tempo.

SC – Qual a perspectiva para que esta discussão se dê de forma mais ampla e geral?

Prof. Ulisses – Acho que isso vai passar pelo aumento de publicações na área. Na verdade existem os Parâmetros Curriculares do MEC, alguma coisa na mídia, mas existe um grande movimento das editoras (uma vez que o grande comprador editorial de material didático no Brasil é o MEC), que estão se mobilizando para produzir materiais didáticos e livros de formação de professores coerentes com esta nova concepção. Eu por exemplo estou coordenando uma coleção para a Editora Moderna, abordando todas as áreas do conteúdo curricular nas escolas. Um processo de maturação que já tem dois anos e os primeiros livros devem sair em maio/99. Então acredito que estes devem ser mais discutidos a partir do segundo semestre, principalmente nos cursos de pedagogia. Essa discussão não está sendo trabalhada de forma sistematizada em nenhum curso de pedagogia, nem na própria Unicamp, mas acredito que à medida que surgirem as publicações isso comece a se impregnar. Estes chamados temas transversais vieram para ficar, pode-se até mudar o nome, a concepção... Não acredito que qualquer cidadão vá negar a importância de se trabalhar a ética, meio ambiente, sexualidade e a saúde dentro da escola.

SC – Você colocou que ainda não há nada muito definido, mas, na prática como isso se daria dentro da escola? Quem vai trabalhar a ética e a sexualidade, por exemplo, haverá um professor especializado no assunto ou todos terão que ter noções destes temas?

Prof. Ulisses – Na concepção do MEC os conteúdos tradicionais continuam sendo o eixo vertebrador do currículo escolar e por onde perpassam os outros assuntos. Neste sentido, tanto se tem uma forma de se conceber que o professor de matemática vai ter que também trabalhar a sexualidade a partir do seu conteúdo como você pode ter uma forma de criar aulas específicas destes conteúdos dentro da sala de aula. O que eu não gosto e acho muito perigoso, apesar de achar que é aí que muitas escolas vão entrar, porque é mais fácial

SC – O professor teria que ser polivalente, dar aula de matemática, sexualidade, ética, saúde... é por aí?

Prof. Ulisses – Eu prefiro que seja por aí, mas acredito que pelo menos no primeiro momento a maioria das escolas, até por pressão de professores, inclusive, vai acabar contratando um professor para dar aula de educação sexual, por exemplo. Agora, isso é continuar dissociando o conhecimento como se a matemática fosse o fim da educação. Essa Segunda concepção a que me referi propõe um giro na concepção da educação aonde o fim da educação, em vez de ser matemática, a biologia, a física, como queria a cultura grega, passa a ser a cidadania, o respeito às pessoas. Vou chegar a este respeito através da Língua Portuguesa, da Matemática. Isso sim é uma inversão de paradigmas que eu acredito que deveria acontecer. Apesar de muitos professores acharem não estar preparados para isso, não acredito que seja verdade. O difícil é mudar a cabeça das pessoas, é fazer o professor trabalhar o seu conteúdo a partir do cotidiano do aluno. Por exemplo pegar uma conta de luz para trabalhar matemática, quando a partir daí eu posso discutir a cidadania com base nos cálculos de reajuste e como isso interfere na minha vida.

SC – Para que isso se dê na prática, leva um certo tempo, tem que haver mudanças de concepção, inclusive de formação de professor...

Prof. Ulisses - ...é, e não podemos nos esquecer que vivemos num estado neoliberal e o neoliberalismo vai dizer que o valor está no indivíduo. Portanto, o Estado que cria esta reforma se desobriga de formar estes professores.

SC – E como resolver?

Prof. Ulisses – Ele acha que cada professor tem que cuidar da sua formação, ele não está preocupado se o professor de determinada escola está a fim de trabalhar esta questão ou não. Ele faz diferente: uma coisa extremamente inteligente, ele cria sistema de avaliação, assim como o provão na Universidade, o ENEM no Ensino Médio e a mudança do vestibular. O que houve de mudança de emprego, de "desemprego", nas escolas privadas no último ano é uma coisa impressionante porque as escolas estão se dando conta da mudança que está acontecendo e não querem mais um professor que vai lá só para dar aula de matemática porque sabem que o vestibular vai ser diferente. Portanto, não é que vai haver um desemprego, vai haver uma mudança de emprego. Aquele professor que correr atrás para se formar vai sobreviver no mercado de trabalho. O Estado neoliberal não dá condições para esta formação.

SC – Por isso que eu disse que a proposta do MEC está sendo centralizadora e elitista, uma vez que sugere mudanças e exige formação, mas não oferece condições para isso.

Prof. Ulisses – Até mesmo autoritária nesse sentido. Não é que a proposta do MEC seja autoritária, na verdade ela surgiu mais por causa da pressão da sociedade, mas a forma de ação do Estado é autoritária. Ele pega uma idéia que acha boa e impõe às pessoas, então, ou elas se adaptam ou estão fora do mercado de trabalho. Aí está o desemprego e uma série de coisas que acontecem.

SC – Quer dizer: o professor hoje, para se manter no mercado de trabalho, além de estar preocupado com a área específica, precisa fazer diversos cursos, dos mais variados assuntos?

Prof. Ulisses – Como todas as profissões atualmente no mercado de trabalho neste mundo globalizado, não se concebe mais uma pessoa que entende somente de um determinado conteúdo.

SC – O especialísta está fora do mercado de trabalho?

Prof.Ulisses – Ele está fora, precisa ser capaz de se adaptar, entender a sua volta. Na Educação não é diferente. As empresas estão buscando muito mais flexibilidade nas pessoas, do que a especialização. O professor está tendo que se adaptar.